In the next five years
“NUNCA VAMOS DAR FALSAS EXPECTATIVAS AO POVO OU A QUEM MANDA”
Janeiro, Fevereiro e Março de 2024
Revista Petrogás & Bio I No 0
“NUNCA VAMOS DAR FALSAS EXPECTATIVAS AO POVO OU A QUEM MANDA”
Revista Petrogás & Bio I No 0
Janeiro, Fevereiro e Março de 2024

Pedimos um pequeno perfil e aquilo se transformou num enorme poço cheio de conhecimento científico, técnico e profissional invejável. Pedimos que nos falasse de si como homem, e das suas respostas facilmente se chegou à conclusão que estávamos diante de uma pessoa bastante disciplinada; afinal, o nosso interlocutor movimenta-se com segurança entre os corredores das altas finanças ligadas ao mundo do “ouro negro”, e uma doseada altivez, própria de quem conhece profundamente o território e, por isso mesmo, respeitado entre os seus pares, dentro e fora do país, Afinal, são mui- tos anos doados à causa do desenvolvimento e crescimento da indústria petrolífera.
Em Exclusivo, cá temos o Engenheiro Paulino Fernando de Carvalho Jerónimo, nascido aos 22 de Março de 1960, Presidente do Conselho de Administração da Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANPG), que aceitou responder diversas questões relacionadas com a instituição que dirige há quatro anos, incluindo as que, em diversos meios, são consideradas “mais sensíveis”, tais como os encontros mantidos com o Senhor Presidente da República, João Lourenço. Ele não tem dúvidas: “Nunca fui chamado e encontrei o Senhor Presidente zangado comigo!”
Pergunta: - Engenheiro Paulino Jerónimo; há marcos especiais na sua trajectória, depois de ser nomeado para exercer o cargo de Secretário de Estado...Essa, particularmente da nomeação para PCA da ANPG, apanhou-o de surpresa?
Resposta – Eu tinha sido convidado pelo actual Ministro Diamantino Azevedo para Secretário de Estado, cargo que exerci entre Novembro de 2017 a Fevereiro de 2019. Quando foi criada a Agência, ( eu é que
estava a coordenar o grupo técnico), o ministro convidou-me a aceitar o cargo de Presidente do Conselho de Administração da ANPG. Como um bom soldado não escolhe frentes, aceitei o convite e cá estou até hoje.
A minha nomeação não me apanhou de surpresa porque isto foi sempre a minha “praia”. Sempre trabalhei na área da Concessionária; durante estes anos todos, sempre trabalhei na área de exploração e produção, então estava, de facto, a voltar para aquilo que é a minha “praia”.
Já passaram quatro anos à frente da ANPG, mas acha que os sonhos perseguidos por si estão a ser alcançados?
Estão sim, mas deixa-me fazer-lhe um resumo rápido para uma melhor percepção. Como sabe, a Concessionária foi constituída com base no pessoal proveniente da Sonangol e, logo de início, tivemos a responsabilidade de transferir cerca de 600 pessoas da Sonangol para a ANPG. De facto, estes recursos da Sonangol constituem 99% do pessoal da Agência, hoje, e não podia ser de outra maneira, uma vez que era lá onde funcionava a antiga Concessionária de Angola.
A transferência foi feita exactamente para evitar conflitos de interesses. Era necessário, para além da transferência, separar a função Concessionária, que é do Estado, da função empresarial. Realizou-se a separação e de lá pra cá, nós traçamos logo do princípio o nosso Plano Estratégico com quatro objectivos principais: consolidação da função de fiscalizadora, reguladora e concessionária nacional na Agência.
Um segundo objectivo que para nós era o mais importante, era o de impulsionar e Intensificar o desen- volvimento dos recursos; um terceiro era o da valorização do capital humano e, por último e não menos importante, tem a ver com a saúde, segurança e ambiente.
Daí passamos para a implementação, que, de facto, inicialmente não foi um sucesso... Os operadores tinham receio dessa transferência porque diziam que em África isso raramente acontecia...
Certamente este receio tinha razão de ser, Presidente, pois existem poucas agências do género em África com tamanha complexidade e responsabilidade que tenham realizada uma restruturação em tão pouco tempo e bem sucedida...
Quais foram, afinal, as maiores dificuldades nessa transição?
Foi a transferência dos recursos humanos. Os contratos não constituíram problema porque quem veio de lá para cá, já dominava o tema. Por exemplo, quem estava a trabalhar com o Bloco 20, trouxe com ele os processos e os contra- tos pendentes, de tal maneira que o processo foi tão simples que não causou disrupção ao sector petrolífero. O sector quase que não sentiu essa mudança. E isso foi o mais importante...
Nota-se que é um homem muito optimista... Quando entrou para a ANPG também trazia este espírito?
Eu sou por natureza um indivíduo optimista, porque o pessimista não faz bem o seu trabalho. Primeiro aceitamos o desafio e fazemos tudo para implementar e concretizar o desafio. Nesse caso, muitas vezes, as pessoas têm de compreender que o mundo é dinâmico. O que eu pensei há quatro ou cinco anos, posso não estar a pensar agora porque as coisas evoluíram. Posso dar-lhe um exemplo; logo no início da instalação da Agência, negociámos vários contratos com diferentes operadoras. Negociámos com o Bloco 15 um acordo a nível do redesenvolvimento de campos que hoje está a dar os seus resultados.Estamos a produzir cerca de trinta mil barris acima do que inicialmente estava previsto. Assinámos também com a Chevron um acordo de extensão até 2050; assinámos com o Bloco 17 um acordo de extensão até 2045, mas, no entanto, muitos destes acordos podem não estar a ter os seus efeitos desejados. E é de facto aí onde tem de haver dinamismo. Quer dizer, uma pessoa tem de reinventar-se todos os dias e questionar- se: “ espera aí; será que a indústria está satisfeita com o desempenho do sector petrolífero em Angola? ”. Ora, esta é a primeira pergunta que você tem de se colocar... Então se está satisfeita, porquê que não está a investir mais? Portanto, é preciso encontrar a resposta para esta pergunta...A tendência dos operadores é de investir mais, desde que haja os incentivos necessários para que se possa fazer esse investimento. Nós temos estado a encarar este desafio com optimismo, porque temos iniciativas que fazem com que as empresas invistam mais. Hoje, a nossa produção está acima de 1 milhão e cem barris, exactamente devido a este investimento por parte das operadoras.
Tem de se dar um tempo para que estes contratos sejam concretizados ?
Exactamente e comecem a dar resultados. O que é que acontece? No petróleo, como em qualquer sector, as coisas não acontecem de um dia para o outro... Planifica-se, assinam-se os contratos, depois é a implementação. Na maior parte das vezes, começa-se a sentir hoje os efeitos dos acordos assinados há quatro ou cinco anos...
Como homem que está à frente desta estrutura importante para o nosso país, sente-se por isso mesmo pressionado por outros sectores? O País pode andar sem a Agência ou a Agência não pode andar sem o País?
Hoje o país necessita de uma agencia solida e dinâmica para a defesa dos seus interesses. Acho que esta pressão é natural, porque deve compreender que 95% das nossas exportações vêm do crude. Angola vive ainda, em termos de arrecadação de divisas, do petróleo bruto. Deixa-me dar- lhe um exemplo: há pouco tempo, nós tive- mos uma produção em menos de 100/110 mil barris de óleo por dia porque parámos um campo para manutenção. Foi uma paragem já planificada há muito tempo...No entanto, apercebemo-nos do impacto que isto teve no nosso dia-a-dia. Isto mostra mostrar que nós temos de estar sempre atentos ao nosso desempenho. O nosso mau desempenho impacta negativamente o desenvolvimento da nossa economia.
Face a esta pressão diária, permanente, o senhor consegue dormir tranquilo?
Durmo tranquilo, porque sei que estou a fazer um bom trabalho e tenho uma excelente equipa ...
Quantas horas dorme por dia ?
Oito horas. Sei que tenho grandes desafios, assumo. Por outro lado, tenho uma equipa competente. Eu sozinho não faço a Agência... A ANPG é feita por um universo de mais de seiscentas pessoas, cada uma com as suas competências e o que tenho de fazer é coordenar todas essas competências.
Sente-se um homem poderoso?
Não, sinto-me como um servidor do Estado. Não preciso de ser poderoso, preciso é de servir o Estado, ali onde o Estado tem os seus interesses.
Torna-se curioso quando a gente vê pessoas que, como o senhor, trabalham no sector dos petróleos, dominam o “metiê”, estão na base do surgimento de muitos contratos bilionários... Neste contexto, quais são as suas posses, realmente?

Em termos de posses, não sou famoso! As pessoas muitas vezes associam-me aos projectos de investimentos no sector petrolífero, Deixe-me dizer que os investimentos, no primeiro semestre, foram de 12 mil milhões de dólares...Assinámos contratos, autorizámos despesas nesse valor...E as pessoas associam isso às posses. Não! Eu tenho o meu salário, mas claro que tenho investimentos feitos. Enfim, vivo do meu salário e os investimentos feitos por mim...Nada por aí além...
Mas sente-se mesmo que é poderoso, pelo menos em termos de gestão desse poder...?
Não, eu não sou poderoso! Eu consigo gerir é o poder. Deixe- -me sublinhar uma coisa que é verdade. O poder também tem de ser gerido. Até a fama tem de ser bem gerida. A gente quantos artistas vê, têm fama no primeiro ano e depois esta desaparece? Desaparece porque não souberam gerir a fama... Portanto, o poder que nos é atribuído pelas instâncias superiores, tem de ser bem gerido porque, no final, o poder pertence a elas e elas é que têm o poder de decidir quem fica aí ou quem não fica...
Esta conversa está a decorrer de forma tão franca e aberta, que até me apetece perguntar: tem mantido contacto regular com o Senhor Presidente da República?
Eu tenho sido recebido várias vezes pelo Senhor Presidente da República. Muitas vezes com o ministro, muitos vezes sou chamado sozinho ...
Mas é uma agenda regular?
Não, não é bem regular ...
Não o trata como uma pessoa especial, dentro do sistema?
Não, não...É sempre dentro das competências do Senhor Presidente. Sua Excelência, o Senhor Presidente da República tem a competência de chamar qualquer um outro servidor do Estado. Mas a maior parte das vezes somos chamados pelo Ministro...
E as conversas como é que decorrem?
De maneira amena, tranquila. Deixe-me dizer que eu gosto da maneira como o Senhor Presidente nos trata. Não tenho reclamação nenhuma a fazer. Nunca fui chamado e encontrei o Senhor Presidente zangado comigo. Pelo contrário, sempre fui tratado de maneira afável!O senhor também tem mantido contactos importantes com os poderosos, não só do sistema angolano, como lá fora...Tenho contactos, mas estes são mais do sector petrolífero. Tenho contactos ligados com os CEO’s ligados às operações, enfim, naturalmente tenho essa interacção principalmente com das empresas multinacionais que operam em Angola. Ao longo destes quatro anos já sente que estes contactos são muito mais afáveis no sector petrolífero... Já está muito mais habituado a percorrer todos aqueles corredores do sector petrolífero...Sim, exactamente! E principalmente aqui a nível interno, nós criamos uma cooperação com os nossos investidores, a quem chamamos verdadeiramente de parceiros. E a relação é tão boa que eles estão a investir cada vez mais. Quando comparado o nível de investimentos do primeiro trimestre de 2022 com o mesmo período de 2023, notamos um aumento de 156 %. Quer dizer que esta tendência de aumento de investimento em Angola vai garantir a estabilidade da nossa produção. Sem este investimento, não estaríamos estáveis como estamos hoje.
Quais são os próximos passos daANPG? Refiro-me em termos de produção, pois existe a sensação de que alguma coisa está a correr mal no sector ...
Eu não diria que esteja tudo a correr mal, porque uma vez mais digo-lhe: eu sou optimista! Em pouco tempo, em termos de produção, nós estamos em cerca de um milhão e cem barris, mas nunca vamos dar falsas expectativas a quem manda ou ao povo... Há pouco tempo, penso que também o senhor esteve nesse encon- tro com o ministro, um jornalista fez uma pergunta relativamente à produção e nós respondemos que o nosso objectivo é manter estável o nível de produção em que nos encontramos hoje.O que é que significa manter a produção ao nível que estamos hoje? Nós temos que pôr em produção anualmente cerca de 110 a 120 mil barris de óleo por dia, o que não é tarefa fácil. É um grande desafio!. Temos conseguido fazer isso. Daí, se reparar, nos últimos três anos nós temos a produção mais ou menos ao mesmo nível. Um milhão e cem, um milhão e cento e cinquenta...Estamos mais ou menos estabilizados nesse nível.Claro que há um esforço grande a fazer-se, mas nós também temos de ser mais criativos, Vou lhe dar um exemplo: hoje, em relação aos campos maduros ( Bloco 15, 17e 0) a partilha de petróleo-lucro entre o Estado e o grupo investidor já é em benefício do Estado. Está em 80% para o Estado e 20% para o investidor.Na prática, dá 90/10 porque o investidor possui os 20% e ainda paga 50% de imposto. Nós reconhecemos que isto é contratual, porque no início já esteve ao contrário, É contratual, pois em nome da estabilidade, temos de manter este princípio. Mas também temos de reconhecer que, enquanto estivermos nesse nível, os investido- res não vão meter mais dinheiro.Então, o que é que nós estamos a pensar nessa altura? É fazer um projecto que diga ao investidor: “meu amigo; se a produção acordada ao longo dos anos estiver abaixo desse perfil, a partilha é feita de acordo com o que diz o contrato (90%/10%, 80%/20%, 70%/30%). Se o senhor conseguir produzir acima da produção esperada, então haverá partilha diferente. Eu vou te dar mais petróleo lucro, mais benefícios directos, porque a tua produção é maior”.Senhor Presidente, qual foi o maior sucesso obtido em ter- mos de investimentos durante este mandato? Valeu a pena o esforço financeiro?Citei o Bloco 15, que foi um exemplo concreto, em que nós conseguimos resolver um assunto que estava há muito tempo encravado. Este bloco tinha onze áreas de desenvolvimento. Nós sabíamos que nem todas essas áreas conseguiam recuperar o investido. Naturalmente, quem estava na casa-mãe, nos Estados Unidos da América – Exxon – indagou-se: “se eu não consigo recuperar todo o investi- mento nas diferentes áreas, então não vou investir mais em Angola”...
Senhor Presidente, qual foi o maior sucesso obtido em ter- mos de investimentos durante este mandato? Valeu a pena o esforço financeiro?
Citei o Bloco 15, que foi um exemplo concreto, em que nós conseguimos resolver um assunto que estava há muito tempo encravado. Este bloco tinha onze áreas de desenvolvimento. Nós sabíamos que nem todas essas áreas conseguiam recuperar o investido. Naturalmente, quem estava na casa-mãe, nos Estados Unidos da América – Exxon – indagou-se: “se eu não consigo recuperar todo o investimento nas diferentes áreas, então não vou investir mais em Angola”...
Então nós tínhamos de solucionar este problema para que esta multi- nacional continuasse a investir no nosso país. O que é que nós fizemos? Realizamos uma junção de áreas de desenvolvimento tendo passado de 11 para 4, para permitir que todos os investimentos fossem recuperados. Como consequência disto, o operador decidiu investir mais em Angola. E mais: o resultado final é que a expectativa do Estado até 2032 é receber cerca de 2.5 biliões de dólares acima do previsto.
Como é que está a concorrência exterior à ANPG? Questiono-o no sentido de que se está a meter mais dinheiro aqui em Angola do que noutras regiões com potencialidades muito maiores...
Ainda bem que me coloca essa questão. Se compararmos o mapa do petróleo bruto há trinta anos, com o mapa actual, vamos dar conta que na parte ocidental da África os países produtores de petróleo eram a Nigéria, o Gabão, Congo e Angola. Se hoje olharmos para o mesmo mapa, vamos dar conta que do Marrocos à Somália, praticamente todos os países já descobriram petróleo. A concorrência é muito maior... O que é que isto quer dizer? Se não tratarmos a concorrência tal como ela existe, podemos não atrair investimentos adicionais.
Neste contexto, é preciso sermos mais criativos, de maneira a que as empresas, em vez de escolherem outras geografias, continuem a optar por Angola como local ideal para os seus investimentos. Essa é a nossa tarefa!
Até agora sente-se satisfeito?
Sinto-me, embora não adormeça no sucesso, Eu acredito que é importante não dormir no sucesso...É importante continuar a criar incentivos para que as empresas se sintam atraídas pelo mercado angolano.
Presidente, há a ideia de que desde a criação até a consolidação da ANPG no mercado, se sente aliviado... O barco agora está mesmo a navegar em boas águas?
Definitivamente, o barco está a navegar em boas águas, mas mais uma vez digo: não podemos adormecer e o não adormecimento significa continuar a incentivar as empresas a melhorar a recuperação dos campos maduros, a fazer mais exploração, a desenvolver os campos marginais. Esta tem de ser a nossa tarefa agora; é o desafio colocado na nossa mesa e nós estamos quase a alcançar isto. Temos estado a conversar indi- vidualmente com os operadores, nesse sentido...
A diplomacia económica desenvolvida ao mais alto nível tem surtido os efeitos desejados, particularmente no sector petrolífero? Vocês têm uma agenda concreta a desenvolver nos próximos tempos neste quadro, particularmente a nível africano ?
Esta diplomacia económica, de nossa parte, está objectivamente a ser feita no sentido de tornar Angola num local apetecível para os investimentos, de tal maneira que as empresas se sintam confortáveis no país e isto tem acontecido. A cada dia que passa, nós temos mais empresas a entrarem no país. Isto quer dizer que o nosso mercado está bom. E isto é de facto a parte da nossa diplomacia, na sequência da diplomacia económica que é conduzida pelo nosso Presidente da República.
Na mesma esteira, na nossa área vamos atraindo investidores para que invistam em Angola. Exemplo concreto? Nós realizamos a licitação de oito blocos da Bacia Terrestre do Kwanza e quatro na do Congo, em que tivemos 23 empresas a concorrer, sendo 12 estrangeiras e 11 angolanas. Quer dizer que o nosso mercado continua bom para o investimento estrangeiro.
Estas empresas angolanas vão ter que demonstrar a sua capacidade técnica e financeira para concretizar os seus sonhos, não é verdade?

Nós somos realistas e estamos aqui para ajudar. Sabemos que as nossas empresas não estão preparadas a nível das outras. Nós esta- mos a criar todas as bases legais, de modo a que elas, de facto, possam investir e é sempre bom vermos os nacionais a meter o seu dinheiro aqui no nosso país.
O conteúdo local, não trata apenas da prestação de serviços, mas também deve intervir na actividade da exploração e produção. Nós temos estado a trabalhar com as empresas nacionais, no sentido de que esse conteúdo local também funcione nessa área.(...).
Qual foi a sua maior realização do ponto de vista profissional?
A minha maior realização é a Agência, porque, de facto, eu estive na génese da sua criação e eu sou só o primeiro Presidente do Conselho de Administração.
Sente-se o “dono “ do golo?
O “dono”, não. Represento o “dono” (risos). Então estou satisfeito com essa realização. Mas deixe-me aproveitar esta oportunidade para dizer que neste ambiente de grande competitividade, neste ambiente que temos de negociar contratos com as operadoras, para não “cair no prejuízo”, nós devemos estar bem preparados. Temos de ter na formação uma das apostas mais importantes da Agência. Nós formámos, formámos muito e vamos continuar a formar porque precisamos de ter o pessoal bem preparado.
Muitas vezes, quando estamos a negociar, do outro lado da barri- cada estão indivíduos com 25/30 anos de experiência do mundo. Do nosso lado, estão indivíduos com certos anos de experiência de Angola. Portanto, quando os mandamos para fora e formar-se, é também para se exporem a outros ambientes e puderem, de facto, negociar de igual para igual.
Falemos sobre a responsabilidade social da ANPG e Biocombustíveis. Numa escala de 1 a 10 em que lugar colocaria a Agência comparativamente às outras instituições do domínio petrolífero?
Nós colocaríamos a Agência no nível 8. Felizmente, a indústria petrolífera tem feito muito investimento na área social, e um dos seus pilares é o engajamento com as comunidades e este engajamento é feito através de projectos sociais.
Tenho estado a ver que vamos inaugurando escolas, hospitais, etc., e isto dá alegrias ao nosso povo. Mas há uma coisa que mais defendo agora. É preciso apostar-mos mais em projectos sociais sustentáveis, Em vez de dar o peixe, dou a cana de pesca, como se diz. Nós temos mil e um exemplos de famílias agrícolas que não têm enxadas, catanas, machados, enfim, um pequeno tractor que as possam ajudar a desenvolver o seu trabalho. Para mim, se as ajudar nessa direcção, os projectos tornam-se sustentáveis, uma vez que se a comunidade estiver a produzir bem, ela própria vai construir a sua escola, o seu posto de saúde ou mesmo um hospital. Mas elas têm de ter meios de sustento e viverem bem.

Pedimos um pequeno perfil e aquilo se transformou num enorme poço cheio de conhecimento científico, técnico e profissional invejável. Pedimos que nos falasse de si como homem, e das suas respostas facilmente se chegou à conclusão que estávamos diante de uma pessoa bastante disciplinada; afinal, o nosso interlocutor movimenta-se com segurança entre os corredores das altas finanças ligadas ao mundo do “ouro negro”, e uma doseada altivez, própria de quem conhece profundamente o território e, por isso mesmo, respeitado entre os seus pares, dentro e fora do país, Afinal, são mui- tos anos doados à causa do desenvolvimento e crescimento da indústria petrolífera.
Em Exclusivo, cá temos o Engenheiro Paulino Fernando de Carvalho Jerónimo, nascido aos 22 de Março de 1960, Presidente do Conselho de Administração da Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANPG), que aceitou responder diversas questões relacionadas com a instituição que dirige há quatro anos, incluindo as que, em diversos meios, são consideradas “mais sensíveis”, tais como os encontros mantidos com o Senhor Presidente da República, João Lourenço. Ele não tem dúvidas: “Nunca fui chamado e encontrei o Senhor Presidente zangado comigo!”
Pergunta: - Engenheiro Paulino Jerónimo; há marcos especiais na sua trajectória, depois de ser nomeado para exercer o cargo de Secretário de Estado...Essa, particularmente da nomeação para PCA da ANPG, apanhou-o de surpresa?
Resposta – Eu tinha sido convidado pelo actual Ministro Diamantino Azevedo para Secretário de Estado, cargo que exerci entre Novembro de 2017 a Fevereiro de 2019. Quando foi criada a Agência, ( eu é que
estava a coordenar o grupo técnico), o ministro convidou-me a aceitar o cargo de Presidente do Conselho de Administração da ANPG. Como um bom soldado não escolhe frentes, aceitei o convite e cá estou até hoje.
A minha nomeação não me apanhou de surpresa porque isto foi sempre a minha “praia”. Sempre trabalhei na área da Concessionária; durante estes anos todos, sempre trabalhei na área de exploração e produção, então estava, de facto, a voltar para aquilo que é a minha “praia”.
Já passaram quatro anos à frente da ANPG, mas acha que os sonhos perseguidos por si estão a ser alcançados?
Estão sim, mas deixa-me fazer-lhe um resumo rápido para uma melhor percepção. Como sabe, a Concessionária foi constituída com base no pessoal proveniente da Sonangol e, logo de início, tivemos a responsabilidade de transferir cerca de 600 pessoas da Sonangol para a ANPG. De facto, estes recursos da Sonangol constituem 99% do pessoal da Agência, hoje, e não podia ser de outra maneira, uma vez que era lá onde funcionava a antiga Concessionária de Angola.
A transferência foi feita exactamente para evitar conflitos de interesses. Era necessário, para além da transferência, separar a função Concessionária, que é do Estado, da função empresarial. Realizou-se a separação e de lá pra cá, nós traçamos logo do princípio o nosso Plano Estratégico com quatro objectivos principais: consolidação da função de fiscalizadora, reguladora e concessionária nacional na Agência.
Um segundo objectivo que para nós era o mais importante, era o de impulsionar e Intensificar o desen- volvimento dos recursos; um terceiro era o da valorização do capital humano e, por último e não menos importante, tem a ver com a saúde, segurança e ambiente.
Daí passamos para a implementação, que, de facto, inicialmente não foi um sucesso... Os operadores tinham receio dessa transferência porque diziam que em África isso raramente acontecia...
Certamente este receio tinha razão de ser, Presidente, pois existem poucas agências do género em África com tamanha complexidade e responsabilidade que tenham realizada uma restruturação em tão pouco tempo e bem sucedida...
Quais foram, afinal, as maiores dificuldades nessa transição?
Foi a transferência dos recursos humanos. Os contratos não constituíram problema porque quem veio de lá para cá, já dominava o tema. Por exemplo, quem estava a trabalhar com o Bloco 20, trouxe com ele os processos e os contra- tos pendentes, de tal maneira que o processo foi tão simples que não causou disrupção ao sector petrolífero. O sector quase que não sentiu essa mudança. E isso foi o mais importante...
Nota-se que é um homem muito optimista... Quando entrou para a ANPG também trazia este espírito?
Eu sou por natureza um indivíduo optimista, porque o pessimista não faz bem o seu trabalho. Primeiro aceitamos o desafio e fazemos tudo para implementar e concretizar o desafio. Nesse caso, muitas vezes, as pessoas têm de compreender que o mundo é dinâmico. O que eu pensei há quatro ou cinco anos, posso não estar a pensar agora porque as coisas evoluíram. Posso dar-lhe um exemplo; logo no início da instalação da Agência, negociámos vários contratos com diferentes operadoras. Negociámos com o Bloco 15 um acordo a nível do redesenvolvimento de campos que hoje está a dar os seus resultados.Estamos a produzir cerca de trinta mil barris acima do que inicialmente estava previsto. Assinámos também com a Chevron um acordo de extensão até 2050; assinámos com o Bloco 17 um acordo de extensão até 2045, mas, no entanto, muitos destes acordos podem não estar a ter os seus efeitos desejados. E é de facto aí onde tem de haver dinamismo. Quer dizer, uma pessoa tem de reinventar-se todos os dias e questionar- se: “ espera aí; será que a indústria está satisfeita com o desempenho do sector petrolífero em Angola? ”. Ora, esta é a primeira pergunta que você tem de se colocar... Então se está satisfeita, porquê que não está a investir mais? Portanto, é preciso encontrar a resposta para esta pergunta...A tendência dos operadores é de investir mais, desde que haja os incentivos necessários para que se possa fazer esse investimento. Nós temos estado a encarar este desafio com optimismo, porque temos iniciativas que fazem com que as empresas invistam mais. Hoje, a nossa produção está acima de 1 milhão e cem barris, exactamente devido a este investimento por parte das operadoras.
Tem de se dar um tempo para que estes contratos sejam concretizados ?
Exactamente e comecem a dar resultados. O que é que acontece? No petróleo, como em qualquer sector, as coisas não acontecem de um dia para o outro... Planifica-se, assinam-se os contratos, depois é a implementação. Na maior parte das vezes, começa-se a sentir hoje os efeitos dos acordos assinados há quatro ou cinco anos...
Como homem que está à frente desta estrutura importante para o nosso país, sente-se por isso mesmo pressionado por outros sectores? O País pode andar sem a Agência ou a Agência não pode andar sem o País?
Hoje o país necessita de uma agencia solida e dinâmica para a defesa dos seus interesses. Acho que esta pressão é natural, porque deve compreender que 95% das nossas exportações vêm do crude. Angola vive ainda, em termos de arrecadação de divisas, do petróleo bruto. Deixa-me dar- lhe um exemplo: há pouco tempo, nós tive- mos uma produção em menos de 100/110 mil barris de óleo por dia porque parámos um campo para manutenção. Foi uma paragem já planificada há muito tempo...No entanto, apercebemo-nos do impacto que isto teve no nosso dia-a-dia. Isto mostra mostrar que nós temos de estar sempre atentos ao nosso desempenho. O nosso mau desempenho impacta negativamente o desenvolvimento da nossa economia.
Face a esta pressão diária, permanente, o senhor consegue dormir tranquilo?
Durmo tranquilo, porque sei que estou a fazer um bom trabalho e tenho uma excelente equipa ...
Quantas horas dorme por dia ?
Oito horas. Sei que tenho grandes desafios, assumo. Por outro lado, tenho uma equipa competente. Eu sozinho não faço a Agência... A ANPG é feita por um universo de mais de seiscentas pessoas, cada uma com as suas competências e o que tenho de fazer é coordenar todas essas competências.
Sente-se um homem poderoso?
Não, sinto-me como um servidor do Estado. Não preciso de ser poderoso, preciso é de servir o Estado, ali onde o Estado tem os seus interesses.
Torna-se curioso quando a gente vê pessoas que, como o senhor, trabalham no sector dos petróleos, dominam o “metiê”, estão na base do surgimento de muitos contratos bilionários... Neste contexto, quais são as suas posses, realmente?

Em termos de posses, não sou famoso! As pessoas muitas vezes associam-me aos projectos de investimentos no sector petrolífero, Deixe-me dizer que os investimentos, no primeiro semestre, foram de 12 mil milhões de dólares...Assinámos contratos, autorizámos despesas nesse valor...E as pessoas associam isso às posses. Não! Eu tenho o meu salário, mas claro que tenho investimentos feitos. Enfim, vivo do meu salário e os investimentos feitos por mim...Nada por aí além...
Mas sente-se mesmo que é poderoso, pelo menos em termos de gestão desse poder...?
Não, eu não sou poderoso! Eu consigo gerir é o poder. Deixe- -me sublinhar uma coisa que é verdade. O poder também tem de ser gerido. Até a fama tem de ser bem gerida. A gente quantos artistas vê, têm fama no primeiro ano e depois esta desaparece? Desaparece porque não souberam gerir a fama... Portanto, o poder que nos é atribuído pelas instâncias superiores, tem de ser bem gerido porque, no final, o poder pertence a elas e elas é que têm o poder de decidir quem fica aí ou quem não fica...
Esta conversa está a decorrer de forma tão franca e aberta, que até me apetece perguntar: tem mantido contacto regular com o Senhor Presidente da República?
Eu tenho sido recebido várias vezes pelo Senhor Presidente da República. Muitas vezes com o ministro, muitos vezes sou chamado sozinho ...
Mas é uma agenda regular?
Não, não é bem regular ...
Não o trata como uma pessoa especial, dentro do sistema?
Não, não...É sempre dentro das competências do Senhor Presidente. Sua Excelência, o Senhor Presidente da República tem a competência de chamar qualquer um outro servidor do Estado. Mas a maior parte das vezes somos chamados pelo Ministro...
E as conversas como é que decorrem?
De maneira amena, tranquila. Deixe-me dizer que eu gosto da maneira como o Senhor Presidente nos trata. Não tenho reclamação nenhuma a fazer. Nunca fui chamado e encontrei o Senhor Presidente zangado comigo. Pelo contrário, sempre fui tratado de maneira afável!O senhor também tem mantido contactos importantes com os poderosos, não só do sistema angolano, como lá fora...Tenho contactos, mas estes são mais do sector petrolífero. Tenho contactos ligados com os CEO’s ligados às operações, enfim, naturalmente tenho essa interacção principalmente com das empresas multinacionais que operam em Angola. Ao longo destes quatro anos já sente que estes contactos são muito mais afáveis no sector petrolífero... Já está muito mais habituado a percorrer todos aqueles corredores do sector petrolífero...Sim, exactamente! E principalmente aqui a nível interno, nós criamos uma cooperação com os nossos investidores, a quem chamamos verdadeiramente de parceiros. E a relação é tão boa que eles estão a investir cada vez mais. Quando comparado o nível de investimentos do primeiro trimestre de 2022 com o mesmo período de 2023, notamos um aumento de 156 %. Quer dizer que esta tendência de aumento de investimento em Angola vai garantir a estabilidade da nossa produção. Sem este investimento, não estaríamos estáveis como estamos hoje.
Quais são os próximos passos daANPG? Refiro-me em termos de produção, pois existe a sensação de que alguma coisa está a correr mal no sector ...
Eu não diria que esteja tudo a correr mal, porque uma vez mais digo-lhe: eu sou optimista! Em pouco tempo, em termos de produção, nós estamos em cerca de um milhão e cem barris, mas nunca vamos dar falsas expectativas a quem manda ou ao povo... Há pouco tempo, penso que também o senhor esteve nesse encon- tro com o ministro, um jornalista fez uma pergunta relativamente à produção e nós respondemos que o nosso objectivo é manter estável o nível de produção em que nos encontramos hoje.O que é que significa manter a produção ao nível que estamos hoje? Nós temos que pôr em produção anualmente cerca de 110 a 120 mil barris de óleo por dia, o que não é tarefa fácil. É um grande desafio!. Temos conseguido fazer isso. Daí, se reparar, nos últimos três anos nós temos a produção mais ou menos ao mesmo nível. Um milhão e cem, um milhão e cento e cinquenta...Estamos mais ou menos estabilizados nesse nível.Claro que há um esforço grande a fazer-se, mas nós também temos de ser mais criativos, Vou lhe dar um exemplo: hoje, em relação aos campos maduros ( Bloco 15, 17e 0) a partilha de petróleo-lucro entre o Estado e o grupo investidor já é em benefício do Estado. Está em 80% para o Estado e 20% para o investidor.Na prática, dá 90/10 porque o investidor possui os 20% e ainda paga 50% de imposto. Nós reconhecemos que isto é contratual, porque no início já esteve ao contrário, É contratual, pois em nome da estabilidade, temos de manter este princípio. Mas também temos de reconhecer que, enquanto estivermos nesse nível, os investido- res não vão meter mais dinheiro.Então, o que é que nós estamos a pensar nessa altura? É fazer um projecto que diga ao investidor: “meu amigo; se a produção acordada ao longo dos anos estiver abaixo desse perfil, a partilha é feita de acordo com o que diz o contrato (90%/10%, 80%/20%, 70%/30%). Se o senhor conseguir produzir acima da produção esperada, então haverá partilha diferente. Eu vou te dar mais petróleo lucro, mais benefícios directos, porque a tua produção é maior”.Senhor Presidente, qual foi o maior sucesso obtido em ter- mos de investimentos durante este mandato? Valeu a pena o esforço financeiro?Citei o Bloco 15, que foi um exemplo concreto, em que nós conseguimos resolver um assunto que estava há muito tempo encravado. Este bloco tinha onze áreas de desenvolvimento. Nós sabíamos que nem todas essas áreas conseguiam recuperar o investido. Naturalmente, quem estava na casa-mãe, nos Estados Unidos da América – Exxon – indagou-se: “se eu não consigo recuperar todo o investi- mento nas diferentes áreas, então não vou investir mais em Angola”...
Senhor Presidente, qual foi o maior sucesso obtido em ter- mos de investimentos durante este mandato? Valeu a pena o esforço financeiro?
Citei o Bloco 15, que foi um exemplo concreto, em que nós conseguimos resolver um assunto que estava há muito tempo encravado. Este bloco tinha onze áreas de desenvolvimento. Nós sabíamos que nem todas essas áreas conseguiam recuperar o investido. Naturalmente, quem estava na casa-mãe, nos Estados Unidos da América – Exxon – indagou-se: “se eu não consigo recuperar todo o investimento nas diferentes áreas, então não vou investir mais em Angola”...
Então nós tínhamos de solucionar este problema para que esta multi- nacional continuasse a investir no nosso país. O que é que nós fizemos? Realizamos uma junção de áreas de desenvolvimento tendo passado de 11 para 4, para permitir que todos os investimentos fossem recuperados. Como consequência disto, o operador decidiu investir mais em Angola. E mais: o resultado final é que a expectativa do Estado até 2032 é receber cerca de 2.5 biliões de dólares acima do previsto.
Como é que está a concorrência exterior à ANPG? Questiono-o no sentido de que se está a meter mais dinheiro aqui em Angola do que noutras regiões com potencialidades muito maiores...
Ainda bem que me coloca essa questão. Se compararmos o mapa do petróleo bruto há trinta anos, com o mapa actual, vamos dar conta que na parte ocidental da África os países produtores de petróleo eram a Nigéria, o Gabão, Congo e Angola. Se hoje olharmos para o mesmo mapa, vamos dar conta que do Marrocos à Somália, praticamente todos os países já descobriram petróleo. A concorrência é muito maior... O que é que isto quer dizer? Se não tratarmos a concorrência tal como ela existe, podemos não atrair investimentos adicionais.
Neste contexto, é preciso sermos mais criativos, de maneira a que as empresas, em vez de escolherem outras geografias, continuem a optar por Angola como local ideal para os seus investimentos. Essa é a nossa tarefa!
Até agora sente-se satisfeito?
Sinto-me, embora não adormeça no sucesso, Eu acredito que é importante não dormir no sucesso...É importante continuar a criar incentivos para que as empresas se sintam atraídas pelo mercado angolano.
Presidente, há a ideia de que desde a criação até a consolidação da ANPG no mercado, se sente aliviado... O barco agora está mesmo a navegar em boas águas?
Definitivamente, o barco está a navegar em boas águas, mas mais uma vez digo: não podemos adormecer e o não adormecimento significa continuar a incentivar as empresas a melhorar a recuperação dos campos maduros, a fazer mais exploração, a desenvolver os campos marginais. Esta tem de ser a nossa tarefa agora; é o desafio colocado na nossa mesa e nós estamos quase a alcançar isto. Temos estado a conversar indi- vidualmente com os operadores, nesse sentido...
A diplomacia económica desenvolvida ao mais alto nível tem surtido os efeitos desejados, particularmente no sector petrolífero? Vocês têm uma agenda concreta a desenvolver nos próximos tempos neste quadro, particularmente a nível africano ?
Esta diplomacia económica, de nossa parte, está objectivamente a ser feita no sentido de tornar Angola num local apetecível para os investimentos, de tal maneira que as empresas se sintam confortáveis no país e isto tem acontecido. A cada dia que passa, nós temos mais empresas a entrarem no país. Isto quer dizer que o nosso mercado está bom. E isto é de facto a parte da nossa diplomacia, na sequência da diplomacia económica que é conduzida pelo nosso Presidente da República.
Na mesma esteira, na nossa área vamos atraindo investidores para que invistam em Angola. Exemplo concreto? Nós realizamos a licitação de oito blocos da Bacia Terrestre do Kwanza e quatro na do Congo, em que tivemos 23 empresas a concorrer, sendo 12 estrangeiras e 11 angolanas. Quer dizer que o nosso mercado continua bom para o investimento estrangeiro.
Estas empresas angolanas vão ter que demonstrar a sua capacidade técnica e financeira para concretizar os seus sonhos, não é verdade?

Nós somos realistas e estamos aqui para ajudar. Sabemos que as nossas empresas não estão preparadas a nível das outras. Nós esta- mos a criar todas as bases legais, de modo a que elas, de facto, possam investir e é sempre bom vermos os nacionais a meter o seu dinheiro aqui no nosso país.
O conteúdo local, não trata apenas da prestação de serviços, mas também deve intervir na actividade da exploração e produção. Nós temos estado a trabalhar com as empresas nacionais, no sentido de que esse conteúdo local também funcione nessa área.(...).
Qual foi a sua maior realização do ponto de vista profissional?
A minha maior realização é a Agência, porque, de facto, eu estive na génese da sua criação e eu sou só o primeiro Presidente do Conselho de Administração.
Sente-se o “dono “ do golo?
O “dono”, não. Represento o “dono” (risos). Então estou satisfeito com essa realização. Mas deixe-me aproveitar esta oportunidade para dizer que neste ambiente de grande competitividade, neste ambiente que temos de negociar contratos com as operadoras, para não “cair no prejuízo”, nós devemos estar bem preparados. Temos de ter na formação uma das apostas mais importantes da Agência. Nós formámos, formámos muito e vamos continuar a formar porque precisamos de ter o pessoal bem preparado.
Muitas vezes, quando estamos a negociar, do outro lado da barri- cada estão indivíduos com 25/30 anos de experiência do mundo. Do nosso lado, estão indivíduos com certos anos de experiência de Angola. Portanto, quando os mandamos para fora e formar-se, é também para se exporem a outros ambientes e puderem, de facto, negociar de igual para igual.
Falemos sobre a responsabilidade social da ANPG e Biocombustíveis. Numa escala de 1 a 10 em que lugar colocaria a Agência comparativamente às outras instituições do domínio petrolífero?
Nós colocaríamos a Agência no nível 8. Felizmente, a indústria petrolífera tem feito muito investimento na área social, e um dos seus pilares é o engajamento com as comunidades e este engajamento é feito através de projectos sociais.
Tenho estado a ver que vamos inaugurando escolas, hospitais, etc., e isto dá alegrias ao nosso povo. Mas há uma coisa que mais defendo agora. É preciso apostar-mos mais em projectos sociais sustentáveis, Em vez de dar o peixe, dou a cana de pesca, como se diz. Nós temos mil e um exemplos de famílias agrícolas que não têm enxadas, catanas, machados, enfim, um pequeno tractor que as possam ajudar a desenvolver o seu trabalho. Para mim, se as ajudar nessa direcção, os projectos tornam-se sustentáveis, uma vez que se a comunidade estiver a produzir bem, ela própria vai construir a sua escola, o seu posto de saúde ou mesmo um hospital. Mas elas têm de ter meios de sustento e viverem bem.
LEADERSHIP

Pedimos um pequeno perfil e aquilo se transformou num enorme poço cheio de conhecimento científico, técnico e profissional invejável. Pedimos que nos falasse de si como homem, e das suas respostas facilmente se chegou à conclusão que estávamos diante de uma pessoa bastante disciplinada; afinal, o nosso interlocutor movimenta-se com segurança entre os corredores das altas finanças ligadas ao mundo do “ouro negro”, e uma doseada altivez, própria de quem conhece profundamente o território e, por isso mesmo, respeitado entre os seus pares, dentro e fora do país, Afinal, são mui- tos anos doados à causa do desenvolvimento e crescimento da indústria petrolífera.
Em Exclusivo, cá temos o Engenheiro Paulino Fernando de Carvalho Jerónimo, nascido aos 22 de Março de 1960, Presidente do Conselho de Administração da Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANPG), que aceitou responder diversas questões relacionadas com a instituição que dirige há quatro anos, incluindo as que, em diversos meios, são consideradas “mais sensíveis”, tais como os encontros mantidos com o Senhor Presidente da República, João Lourenço. Ele não tem dúvidas: “Nunca fui chamado e encontrei o Senhor Presidente zangado comigo!”
Pergunta: - Engenheiro Paulino Jerónimo; há marcos especiais na sua trajectória, depois de ser nomeado para exercer o cargo de Secretário de Estado...Essa, particularmente da nomeação para PCA da ANPG, apanhou-o de surpresa?
Resposta – Eu tinha sido convidado pelo actual Ministro Diamantino Azevedo para Secretário de Estado, cargo que exerci entre Novembro de 2017 a Fevereiro de 2019. Quando foi criada a Agência, ( eu é que
estava a coordenar o grupo técnico), o ministro convidou-me a aceitar o cargo de Presidente do Conselho de Administração da ANPG. Como um bom soldado não escolhe frentes, aceitei o convite e cá estou até hoje.
A minha nomeação não me apanhou de surpresa porque isto foi sempre a minha “praia”. Sempre trabalhei na área da Concessionária; durante estes anos todos, sempre trabalhei na área de exploração e produção, então estava, de facto, a voltar para aquilo que é a minha “praia”.
Já passaram quatro anos à frente da ANPG, mas acha que os sonhos perseguidos por si estão a ser alcançados?
Estão sim, mas deixa-me fazer-lhe um resumo rápido para uma melhor percepção. Como sabe, a Concessionária foi constituída com base no pessoal proveniente da Sonangol e, logo de início, tivemos a responsabilidade de transferir cerca de 600 pessoas da Sonangol para a ANPG. De facto, estes recursos da Sonangol constituem 99% do pessoal da Agência, hoje, e não podia ser de outra maneira, uma vez que era lá onde funcionava a antiga Concessionária de Angola.
A transferência foi feita exactamente para evitar conflitos de interesses. Era necessário, para além da transferência, separar a função Concessionária, que é do Estado, da função empresarial. Realizou-se a separação e de lá pra cá, nós traçamos logo do princípio o nosso Plano Estratégico com quatro objectivos principais: consolidação da função de fiscalizadora, reguladora e concessionária nacional na Agência.
Um segundo objectivo que para nós era o mais importante, era o de impulsionar e Intensificar o desen- volvimento dos recursos; um terceiro era o da valorização do capital humano e, por último e não menos importante, tem a ver com a saúde, segurança e ambiente.
Daí passamos para a implementação, que, de facto, inicialmente não foi um sucesso... Os operadores tinham receio dessa transferência porque diziam que em África isso raramente acontecia...
Certamente este receio tinha razão de ser, Presidente, pois existem poucas agências do género em África com tamanha complexidade e responsabilidade que tenham realizada uma restruturação em tão pouco tempo e bem sucedida...
Quais foram, afinal, as maiores dificuldades nessa transição?
Foi a transferência dos recursos humanos. Os contratos não constituíram problema porque quem veio de lá para cá, já dominava o tema. Por exemplo, quem estava a trabalhar com o Bloco 20, trouxe com ele os processos e os contra- tos pendentes, de tal maneira que o processo foi tão simples que não causou disrupção ao sector petrolífero. O sector quase que não sentiu essa mudança. E isso foi o mais importante...
Nota-se que é um homem muito optimista... Quando entrou para a ANPG também trazia este espírito?
Eu sou por natureza um indivíduo optimista, porque o pessimista não faz bem o seu trabalho. Primeiro aceitamos o desafio e fazemos tudo para implementar e concretizar o desafio. Nesse caso, muitas vezes, as pessoas têm de compreender que o mundo é dinâmico. O que eu pensei há quatro ou cinco anos, posso não estar a pensar agora porque as coisas evoluíram. Posso dar-lhe um exemplo; logo no início da instalação da Agência, negociámos vários contratos com diferentes operadoras. Negociámos com o Bloco 15 um acordo a nível do redesenvolvimento de campos que hoje está a dar os seus resultados.Estamos a produzir cerca de trinta mil barris acima do que inicialmente estava previsto. Assinámos também com a Chevron um acordo de extensão até 2050; assinámos com o Bloco 17 um acordo de extensão até 2045, mas, no entanto, muitos destes acordos podem não estar a ter os seus efeitos desejados. E é de facto aí onde tem de haver dinamismo. Quer dizer, uma pessoa tem de reinventar-se todos os dias e questionar- se: “ espera aí; será que a indústria está satisfeita com o desempenho do sector petrolífero em Angola? ”. Ora, esta é a primeira pergunta que você tem de se colocar... Então se está satisfeita, porquê que não está a investir mais? Portanto, é preciso encontrar a resposta para esta pergunta...A tendência dos operadores é de investir mais, desde que haja os incentivos necessários para que se possa fazer esse investimento. Nós temos estado a encarar este desafio com optimismo, porque temos iniciativas que fazem com que as empresas invistam mais. Hoje, a nossa produção está acima de 1 milhão e cem barris, exactamente devido a este investimento por parte das operadoras.
Tem de se dar um tempo para que estes contratos sejam concretizados ?
Exactamente e comecem a dar resultados. O que é que acontece? No petróleo, como em qualquer sector, as coisas não acontecem de um dia para o outro... Planifica-se, assinam-se os contratos, depois é a implementação. Na maior parte das vezes, começa-se a sentir hoje os efeitos dos acordos assinados há quatro ou cinco anos...
Como homem que está à frente desta estrutura importante para o nosso país, sente-se por isso mesmo pressionado por outros sectores? O País pode andar sem a Agência ou a Agência não pode andar sem o País?
Hoje o país necessita de uma agencia solida e dinâmica para a defesa dos seus interesses. Acho que esta pressão é natural, porque deve compreender que 95% das nossas exportações vêm do crude. Angola vive ainda, em termos de arrecadação de divisas, do petróleo bruto. Deixa-me dar- lhe um exemplo: há pouco tempo, nós tive- mos uma produção em menos de 100/110 mil barris de óleo por dia porque parámos um campo para manutenção. Foi uma paragem já planificada há muito tempo...No entanto, apercebemo-nos do impacto que isto teve no nosso dia-a-dia. Isto mostra mostrar que nós temos de estar sempre atentos ao nosso desempenho. O nosso mau desempenho impacta negativamente o desenvolvimento da nossa economia.
Face a esta pressão diária, permanente, o senhor consegue dormir tranquilo?
Durmo tranquilo, porque sei que estou a fazer um bom trabalho e tenho uma excelente equipa ...
Quantas horas dorme por dia ?
Oito horas. Sei que tenho grandes desafios, assumo. Por outro lado, tenho uma equipa competente. Eu sozinho não faço a Agência... A ANPG é feita por um universo de mais de seiscentas pessoas, cada uma com as suas competências e o que tenho de fazer é coordenar todas essas competências.
Sente-se um homem poderoso?
Não, sinto-me como um servidor do Estado. Não preciso de ser poderoso, preciso é de servir o Estado, ali onde o Estado tem os seus interesses.
Torna-se curioso quando a gente vê pessoas que, como o senhor, trabalham no sector dos petróleos, dominam o “metiê”, estão na base do surgimento de muitos contratos bilionários... Neste contexto, quais são as suas posses, realmente?

Em termos de posses, não sou famoso! As pessoas muitas vezes associam-me aos projectos de investimentos no sector petrolífero, Deixe-me dizer que os investimentos, no primeiro semestre, foram de 12 mil milhões de dólares...Assinámos contratos, autorizámos despesas nesse valor...E as pessoas associam isso às posses. Não! Eu tenho o meu salário, mas claro que tenho investimentos feitos. Enfim, vivo do meu salário e os investimentos feitos por mim...Nada por aí além...
Mas sente-se mesmo que é poderoso, pelo menos em termos de gestão desse poder...?
Não, eu não sou poderoso! Eu consigo gerir é o poder. Deixe- -me sublinhar uma coisa que é verdade. O poder também tem de ser gerido. Até a fama tem de ser bem gerida. A gente quantos artistas vê, têm fama no primeiro ano e depois esta desaparece? Desaparece porque não souberam gerir a fama... Portanto, o poder que nos é atribuído pelas instâncias superiores, tem de ser bem gerido porque, no final, o poder pertence a elas e elas é que têm o poder de decidir quem fica aí ou quem não fica...
Esta conversa está a decorrer de forma tão franca e aberta, que até me apetece perguntar: tem mantido contacto regular com o Senhor Presidente da República?
Eu tenho sido recebido várias vezes pelo Senhor Presidente da República. Muitas vezes com o ministro, muitos vezes sou chamado sozinho ...
Mas é uma agenda regular?
Não, não é bem regular ...
Não o trata como uma pessoa especial, dentro do sistema?
Não, não...É sempre dentro das competências do Senhor Presidente. Sua Excelência, o Senhor Presidente da República tem a competência de chamar qualquer um outro servidor do Estado. Mas a maior parte das vezes somos chamados pelo Ministro...
E as conversas como é que decorrem?
De maneira amena, tranquila. Deixe-me dizer que eu gosto da maneira como o Senhor Presidente nos trata. Não tenho reclamação nenhuma a fazer. Nunca fui chamado e encontrei o Senhor Presidente zangado comigo. Pelo contrário, sempre fui tratado de maneira afável!O senhor também tem mantido contactos importantes com os poderosos, não só do sistema angolano, como lá fora...Tenho contactos, mas estes são mais do sector petrolífero. Tenho contactos ligados com os CEO’s ligados às operações, enfim, naturalmente tenho essa interacção principalmente com das empresas multinacionais que operam em Angola. Ao longo destes quatro anos já sente que estes contactos são muito mais afáveis no sector petrolífero... Já está muito mais habituado a percorrer todos aqueles corredores do sector petrolífero...Sim, exactamente! E principalmente aqui a nível interno, nós criamos uma cooperação com os nossos investidores, a quem chamamos verdadeiramente de parceiros. E a relação é tão boa que eles estão a investir cada vez mais. Quando comparado o nível de investimentos do primeiro trimestre de 2022 com o mesmo período de 2023, notamos um aumento de 156 %. Quer dizer que esta tendência de aumento de investimento em Angola vai garantir a estabilidade da nossa produção. Sem este investimento, não estaríamos estáveis como estamos hoje.
Quais são os próximos passos daANPG? Refiro-me em termos de produção, pois existe a sensação de que alguma coisa está a correr mal no sector ...
Eu não diria que esteja tudo a correr mal, porque uma vez mais digo-lhe: eu sou optimista! Em pouco tempo, em termos de produção, nós estamos em cerca de um milhão e cem barris, mas nunca vamos dar falsas expectativas a quem manda ou ao povo... Há pouco tempo, penso que também o senhor esteve nesse encon- tro com o ministro, um jornalista fez uma pergunta relativamente à produção e nós respondemos que o nosso objectivo é manter estável o nível de produção em que nos encontramos hoje.O que é que significa manter a produção ao nível que estamos hoje? Nós temos que pôr em produção anualmente cerca de 110 a 120 mil barris de óleo por dia, o que não é tarefa fácil. É um grande desafio!. Temos conseguido fazer isso. Daí, se reparar, nos últimos três anos nós temos a produção mais ou menos ao mesmo nível. Um milhão e cem, um milhão e cento e cinquenta...Estamos mais ou menos estabilizados nesse nível.Claro que há um esforço grande a fazer-se, mas nós também temos de ser mais criativos, Vou lhe dar um exemplo: hoje, em relação aos campos maduros ( Bloco 15, 17e 0) a partilha de petróleo-lucro entre o Estado e o grupo investidor já é em benefício do Estado. Está em 80% para o Estado e 20% para o investidor.Na prática, dá 90/10 porque o investidor possui os 20% e ainda paga 50% de imposto. Nós reconhecemos que isto é contratual, porque no início já esteve ao contrário, É contratual, pois em nome da estabilidade, temos de manter este princípio. Mas também temos de reconhecer que, enquanto estivermos nesse nível, os investido- res não vão meter mais dinheiro.Então, o que é que nós estamos a pensar nessa altura? É fazer um projecto que diga ao investidor: “meu amigo; se a produção acordada ao longo dos anos estiver abaixo desse perfil, a partilha é feita de acordo com o que diz o contrato (90%/10%, 80%/20%, 70%/30%). Se o senhor conseguir produzir acima da produção esperada, então haverá partilha diferente. Eu vou te dar mais petróleo lucro, mais benefícios directos, porque a tua produção é maior”.Senhor Presidente, qual foi o maior sucesso obtido em ter- mos de investimentos durante este mandato? Valeu a pena o esforço financeiro?Citei o Bloco 15, que foi um exemplo concreto, em que nós conseguimos resolver um assunto que estava há muito tempo encravado. Este bloco tinha onze áreas de desenvolvimento. Nós sabíamos que nem todas essas áreas conseguiam recuperar o investido. Naturalmente, quem estava na casa-mãe, nos Estados Unidos da América – Exxon – indagou-se: “se eu não consigo recuperar todo o investi- mento nas diferentes áreas, então não vou investir mais em Angola”...
Senhor Presidente, qual foi o maior sucesso obtido em ter- mos de investimentos durante este mandato? Valeu a pena o esforço financeiro?
Citei o Bloco 15, que foi um exemplo concreto, em que nós conseguimos resolver um assunto que estava há muito tempo encravado. Este bloco tinha onze áreas de desenvolvimento. Nós sabíamos que nem todas essas áreas conseguiam recuperar o investido. Naturalmente, quem estava na casa-mãe, nos Estados Unidos da América – Exxon – indagou-se: “se eu não consigo recuperar todo o investimento nas diferentes áreas, então não vou investir mais em Angola”...
Então nós tínhamos de solucionar este problema para que esta multi- nacional continuasse a investir no nosso país. O que é que nós fizemos? Realizamos uma junção de áreas de desenvolvimento tendo passado de 11 para 4, para permitir que todos os investimentos fossem recuperados. Como consequência disto, o operador decidiu investir mais em Angola. E mais: o resultado final é que a expectativa do Estado até 2032 é receber cerca de 2.5 biliões de dólares acima do previsto.
Como é que está a concorrência exterior à ANPG? Questiono-o no sentido de que se está a meter mais dinheiro aqui em Angola do que noutras regiões com potencialidades muito maiores...
Ainda bem que me coloca essa questão. Se compararmos o mapa do petróleo bruto há trinta anos, com o mapa actual, vamos dar conta que na parte ocidental da África os países produtores de petróleo eram a Nigéria, o Gabão, Congo e Angola. Se hoje olharmos para o mesmo mapa, vamos dar conta que do Marrocos à Somália, praticamente todos os países já descobriram petróleo. A concorrência é muito maior... O que é que isto quer dizer? Se não tratarmos a concorrência tal como ela existe, podemos não atrair investimentos adicionais.
Neste contexto, é preciso sermos mais criativos, de maneira a que as empresas, em vez de escolherem outras geografias, continuem a optar por Angola como local ideal para os seus investimentos. Essa é a nossa tarefa!
Até agora sente-se satisfeito?
Sinto-me, embora não adormeça no sucesso, Eu acredito que é importante não dormir no sucesso...É importante continuar a criar incentivos para que as empresas se sintam atraídas pelo mercado angolano.
Presidente, há a ideia de que desde a criação até a consolidação da ANPG no mercado, se sente aliviado... O barco agora está mesmo a navegar em boas águas?
Definitivamente, o barco está a navegar em boas águas, mas mais uma vez digo: não podemos adormecer e o não adormecimento significa continuar a incentivar as empresas a melhorar a recuperação dos campos maduros, a fazer mais exploração, a desenvolver os campos marginais. Esta tem de ser a nossa tarefa agora; é o desafio colocado na nossa mesa e nós estamos quase a alcançar isto. Temos estado a conversar indi- vidualmente com os operadores, nesse sentido...
A diplomacia económica desenvolvida ao mais alto nível tem surtido os efeitos desejados, particularmente no sector petrolífero? Vocês têm uma agenda concreta a desenvolver nos próximos tempos neste quadro, particularmente a nível africano ?
Esta diplomacia económica, de nossa parte, está objectivamente a ser feita no sentido de tornar Angola num local apetecível para os investimentos, de tal maneira que as empresas se sintam confortáveis no país e isto tem acontecido. A cada dia que passa, nós temos mais empresas a entrarem no país. Isto quer dizer que o nosso mercado está bom. E isto é de facto a parte da nossa diplomacia, na sequência da diplomacia económica que é conduzida pelo nosso Presidente da República.
Na mesma esteira, na nossa área vamos atraindo investidores para que invistam em Angola. Exemplo concreto? Nós realizamos a licitação de oito blocos da Bacia Terrestre do Kwanza e quatro na do Congo, em que tivemos 23 empresas a concorrer, sendo 12 estrangeiras e 11 angolanas. Quer dizer que o nosso mercado continua bom para o investimento estrangeiro.
Estas empresas angolanas vão ter que demonstrar a sua capacidade técnica e financeira para concretizar os seus sonhos, não é verdade?

Nós somos realistas e estamos aqui para ajudar. Sabemos que as nossas empresas não estão preparadas a nível das outras. Nós esta- mos a criar todas as bases legais, de modo a que elas, de facto, possam investir e é sempre bom vermos os nacionais a meter o seu dinheiro aqui no nosso país.
O conteúdo local, não trata apenas da prestação de serviços, mas também deve intervir na actividade da exploração e produção. Nós temos estado a trabalhar com as empresas nacionais, no sentido de que esse conteúdo local também funcione nessa área.(...).
Qual foi a sua maior realização do ponto de vista profissional?
A minha maior realização é a Agência, porque, de facto, eu estive na génese da sua criação e eu sou só o primeiro Presidente do Conselho de Administração.
Sente-se o “dono “ do golo?
O “dono”, não. Represento o “dono” (risos). Então estou satisfeito com essa realização. Mas deixe-me aproveitar esta oportunidade para dizer que neste ambiente de grande competitividade, neste ambiente que temos de negociar contratos com as operadoras, para não “cair no prejuízo”, nós devemos estar bem preparados. Temos de ter na formação uma das apostas mais importantes da Agência. Nós formámos, formámos muito e vamos continuar a formar porque precisamos de ter o pessoal bem preparado.
Muitas vezes, quando estamos a negociar, do outro lado da barri- cada estão indivíduos com 25/30 anos de experiência do mundo. Do nosso lado, estão indivíduos com certos anos de experiência de Angola. Portanto, quando os mandamos para fora e formar-se, é também para se exporem a outros ambientes e puderem, de facto, negociar de igual para igual.
Falemos sobre a responsabilidade social da ANPG e Biocombustíveis. Numa escala de 1 a 10 em que lugar colocaria a Agência comparativamente às outras instituições do domínio petrolífero?
Nós colocaríamos a Agência no nível 8. Felizmente, a indústria petrolífera tem feito muito investimento na área social, e um dos seus pilares é o engajamento com as comunidades e este engajamento é feito através de projectos sociais.
Tenho estado a ver que vamos inaugurando escolas, hospitais, etc., e isto dá alegrias ao nosso povo. Mas há uma coisa que mais defendo agora. É preciso apostar-mos mais em projectos sociais sustentáveis, Em vez de dar o peixe, dou a cana de pesca, como se diz. Nós temos mil e um exemplos de famílias agrícolas que não têm enxadas, catanas, machados, enfim, um pequeno tractor que as possam ajudar a desenvolver o seu trabalho. Para mim, se as ajudar nessa direcção, os projectos tornam-se sustentáveis, uma vez que se a comunidade estiver a produzir bem, ela própria vai construir a sua escola, o seu posto de saúde ou mesmo um hospital. Mas elas têm de ter meios de sustento e viverem bem.
LEADERSHIP
A TRAJECTÓRIA NUM INSTITUTO QUE REGULA O MERCADO
“A QUALIDADE DA NOSSA FORMAÇÃO ESTÁ AO NÍVEL DOS PADRÕES INTERNACIONAIS
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