top of page


UÍGE: REENCONTRO COM O TEMPO

  • Facebook
  • instagram-vector-social-media-icon_459124-558_edited

Revista Petrogás & Bio I No 0

Janeiro, Fevereiro e Março de 2024

POR CARLOS MIRANDA (CALABETO)


UÍGE: REENCONTRO COM O TEMPO

  • Facebook
  • instagram-vector-social-media-icon_459124-558_edited

Revista Petrogás & Bio I No 0

Janeiro, Fevereiro e Março de 2024


ree

..Aí, à margem do encontro, acho que alguns até podiam, deviam, tirar o fato, as gravatas e aquele ar de “chefes” para que especialmente nos lembrássemos do passado...aí, podiam ou deviam, se quisessem, contar velhas estórias, mas não houve tempo suficiente para pensarmos em nós. Houve, sim, tempo para pensar país.

Mas já houve um tempo que foi um futuro que se previa quase incerto. Hoje isto parece um paradoxo. Afinal deu certo, pois, naquele intervalo do VIII Conselho Consultivo, vi e senti que, apesar das diferenças, todas as que se possam imaginar, continuamos a ser os mesmos candengues de ontem, transformados em homens.


Mais calmos, naquela lasca de tempo voltamos a ser os chamados “canucos do futuro”, depois de mais de quarenta anos. Conseguiu-se medir o grau de uma amizade, apenas com um toque no ombro; aquele olhar de putos que fomos revigorou-se ; a vontade de nos abraçar como nos velhos tempos impôs-se, sem qualquer espécie de barreiras. Revivemos a determinação de deixar passar o outro para ir ao banheiro porque o IRMÃO mais cacimbado chegou primeiro; das horas mortas do “refeitório” do lar, em que os que mais amarravam pediam ...silêncio... - ”Xê, o outro está a estudar, lhe deixa”; “ aquele ali tá muito concentrado, acho que vai ficar maluco...Estuda muito, pa!”. E era assim...

Aí, no Uíge, senti que depois de quarenta anos SOMOS OS MESMOS; nos princípios dos anos 80, nem sabíamos ao que íamos: Sumbe, um vale enterrado pela natureza, onde fomos parar para mais tarde sermos homens. Irmãos. Sim, aí fomos irmãos, fomos obrigados a sê-lo, porque nem sequer as cartas de casa chegavam como deviam; a comida não chegava, mas sobrava para que todos em família se desenrascassem.


Fomos dos “Encaminhados”. Os melhores. Eu sofri menos. Não aguentei, quando de Luanda chegou uma comissão de avaliação para entrar na cuemba. Não foi fácil. Inspecção militar rigorosa, comandada por cubanos...Os dedos daquela cubana, me incomodaram....”Possas, pa! Assim também, não...” - Refilei feio. Passei no teste, e estava decidido entre os médicos: aquele vai já para o Negage. Curso: Piloto. - “Hê! Céu, naaaaa... Basta os solavancos do Yak- 40 da TAAG. Vou me pisgar e ou vai ou racha”. Des- marquei em 1984, depois de saber que do primeiro grupo que foi pra tropa, alguns passaram para outra dimensão, idos de outras paragens dos “encaminhados”, Morreram. Outros, que são hoje o que são, continuaram, mas alguns depois também seguiram as minhas pisadas. Era dor .... No Uíge, refrescaram-me a memória com aquele reencontro e, para além dos irmãos presentes, tais como o Barroso, o João Magalhães, o Diamantino, o Pedro, o Rocha, o Jorge Vinhas, o Joãozinho Fernandes, o Pick e o Maninho, lembrei-me de outros camaradas e irmãos para a toda a vida ; o Canginha e o sobrinho dele, Tampinha, o Sutter, o Buta, o Martins, o Paulito, o André, o Gamboa, o Jojó, o Enoque, o Alberto, o Belarmino, o Moreno, o Santana, o Manuelito, a Argentina, a Leonor, a Victória, a Sandra, a Mayá, a Ana Maria, a Amélia, o Martins, o Xinote ou Boy Ceesar, que leu um texto costurado por nós, apelando ao PR Dos Santos para que não fossemos na altura à tropa (outros mambos circunstanciais eu nunca vou contar). “A defesa da Pátria é prioritária”, foi a resposta, em resumo, de J.E.S...


Era o salve-se quem poder! Cumprimento obrigatório...

E lá estávamos nós, com uma lágrima de saudade no canto do olho: Sim, no Uíge, depois de mais de quarenta anos estava confirmado: somos mesmo Irmãos para toda a vida... Apesar de algumas quezílias no Lar, nós éramos mesmo NÓS, unidos para o que desse e viesse.... As camaratas eram integradas por pessoas de todas etnias, tribos e raças; originários da Baixa de Luanda ou dos muceques, de muitas províncias, de localidades e bairros, comunas e aldeias, desde as Lundas, até ao Moxico, passando por Benguela ou Huambo. De Malanje, Uíge ou do próprio Cuanza Sul, enfim TODOS, com o mesmo objectivo: vamos aguentar o FUTURO. Sorte: na altura já éramos suficientemente inteligentes para agarrar a todo o custo a “bolsa” dada (e bem) pelo governo...

Há um facto de que jamais me irei esquecer. A comida do baptismo no Lar de estudantes: entrei, como filho de um pai que trabalhava como motorista na DINAPROPE - uma empresa estatal distribuidora de produtos como carnes, de vaca, cabrito, ovos, dobradas, mocotós, etc, e que se dava ao luxo de distribuir os produtos, graciosamente, à vizinhança no meu bairro amado do S.Paulo, vindo do Sambizanga, onde nasci. Estava ali, aterrorizado, na hora do almoço: um baptismo e pêras!! Cheguei e vi: Funje de fuba amarela e couve mergulhada em óleo de palma... E o Tampinha a papar, tipo nada... Assim mesmo, eu, sem treino a ver o filme... “Epa, é isso? Aqui afinal é assim?. Na altura, juro mesmo, eu era rebelde puro... Vi o Tampinha, girei e desmarquei. Gelei, admitindo que aquilo não seria fácil ...Nem para os futuros engenheiros de petróleo e muito menos para uns futuros “cadiapatas” aliados ao curso de professorado, como eu...


Aliás, me enganaram...Alguém, em 1980, meteu o canuco dele em meu nome e eu lerpei, porque na minha ficha, eu li o que estava lá bem escrito, a partir do Liceu Ngola Kiluanji, turma Oitava M, Era para engenheiro de petróleos. Posto lá no “poço”...”naaaa, você é mesmo para o INE e ponto final!”. E os velhos, sonho deles e meu, escafedeu. E pra você voltar e reclamar naquele tempo ias parar aonde ?. “P...se fosse assim, me mandavam só na Escola Central dos Petróleos, pa!!”- refilei, mas não tinha como...A ECP,naquela altura, era uma espécie de “secundária”, mas com condições top. Mas todos queriam o IMP. Segui, sofrendo no silêncio tumular de que dali pra frente tinha de jogar com o tempo. Segui. O tempo.


...Nunca mais fui ao Sumbe... Meu Deus! Depois de um tempinho da fuga, fui me entregar ao jornalismo. Tempo bem curtinho. Com o meu doc de “ adiamento” da tropa quase a expirar, inscrevi-me num concurso público que pediam candidatos para um curso de documentalista-jornalista na Angop. Canja. Professor top: Siona Casimiro. Três meses de ter estado pela primeira viagem e vez no exterior, jamais esqueci a fuba amarela e o repolho mergulhado em óleo de palma. Me mandaram para a R.D.A., e, de regresso, candidatei-me ao primeiro curso de jornalismo do J.A. Grande escola. Outra canja, sem molhos... Sem conduto. Segui o tempo.


A última vez que estive no Sumbe foi em 1988, quando já era jornalista do J.A. depois de uma digressão de Luanda ao Sumbe, passando pelo Dondo, Libolo, Gabela e finalmente Sumbe, numa altura em que havia a necessidade de se demonstrar aos opositores do governo que o país estava sob controle. Uma operação de charme cumprida com sucesso pelo então governador Francisco Ramos da Cruz, sucessor de Armando Dembo. Uma grande odisseia, ocorrida sob um ambiente de medo da morte e desesperança real de que jamais chegaríamos ao Sumbe. Na Gabela, os chefes tinham abandonado a coluna de helicóptero. ”Restamos” na Gabela e depois lá fomos nós como carne para canhão (dava jeito para a realidade comunicacional ) em direcção à nossa Pátria: o Sumbe, nosso lar.


Ah, o reencontro no Uíge...Fica para a história. - “Olá, como estás’?. Possas, pa, é um prazer te rever!!. Quantos anos, meu...Caraças, pa!!”. Pois é. Valeu. Este, é o tempo do PAÍS e este pode, sim, nos roubar todo o tempo possível, imaginário e q.b.; mesmo com sacrifício do tempo das nossas famílias, mas, afinal, na cidade do Uíge, houve um tempo, pequeno, curto, para que finalmente nos abraçássemos...

Obrigado, meus irmãos!.



bottom of page